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Tuesday
May252010

Concreto, abstrato e como são representados no cérebro

Por definição, concreto é o que se pode experimentar sensorialmente, enquanto abstrato, o oposto. Para entender como o cérebro representa esses tipos de conceitos, um artigo publicado na revista Human Brain Mapping em 2010 reuniu e analisou dados de 19 estudos de neuroimagem sobre como o cérebro lida com o abstrato e o concreto.


Lidar mentalmente com conceitos abstratos ativa mais fortemente o giro inferior frontal e o giro temporal médio, ambos do lado esquerdo, relacionados ao processamento verbal, do que conceitos concretos. Por outro lado, lidar com conceitos concretos aumenta a atividade no córtex precúneo esquerdo, giro para-hipocampal, cingulado posterior e giro fusiforme – áreas envolvidas com a percepção sensorial. O estudo sugere, portanto, que ambos os conceitos concretos e abstratos teriam uma representação comum verbal, enquanto os concretos teriam uma representação adicional por visualização mental, semelhante a uma experiência sensorial, mas que ocorre mesmo na ausência do estímulo externo.


A diferença de tratamento cerebral dedicado aos dois tipos de conceitos pode explicar como as palavras concretas são aprendidas mais cedo e reconhecidas mais rapidamente, por exemplo, graças à possibilidade de se formar imagens mentais desses conceitos: é mais fácil visualizar mentalmente um martelo do que a liberdade. (ACMAC, 25/05/2010)

 

 

Fonte: Wang J, Conder JA, Blitzer DN, Shinkareva SV (2010) Neural representation of abstract and concrete concepts: A meta-analysis of neuroimaging studies. Human Brain Mapping 27.

Saturday
May012010

Previsão do futuro: o que atletas de elite têm que você não tem

Ao ver um jogador de basquete fazendo um lance livre, você conseguiria dizer, só pelos seus movimentos iniciais, se ele vai acertar a cesta? Provavelmente não. Treinadores e jornalistas esportivos até conseguem prever o resultado de alguns lances. Mas, segundo um estudo publicado na revista Nature Neuroscience em 2008, jogadores profissionais preveem com bastante acurácia o resultado desses lances.

No estudo, jogadores profissionais, treinadores ou jornalistas esportivos e iniciantes assistiram a clipes de lances livres, editados previamente para que só mostrassem o lance até um certo ponto do movimento. A tarefa dos participantes era decidir o destino da bola: ela “entra”, “não entra”, ou o participante não conseguia decidir.

Uma pessoa que tentasse adivinhar sem nenhuma base o destino da bola deveria acertar se ela entra ou não na cesta 50% das vezes, em média. Os jogadores de elite acertaram suas predições em 67% das vezes, mas treinadores e jornalistas esportivos e o grupo dos iniciantes somente acertaram 44% e 40% dos lances, respectivamente. Se treinadores passam tanto tempo quanto os jogadores que eles treinam acompanhando bolas voando em direção à cesta, por que somente os jogadores conseguem antecipar o resultado dos lances?

A diferença está na capacidade dos jogadores de elite de prever rapidamente o destino da bola - o que é de se esperar pela exigência de decisões rápidas neste jogo frenético. Ao assistir a clipes mais curtos em que a bola não chegava a sair das mãos do jogador, os iniciantes nem arriscavam um palpite sobre se a bola entraria ou não, enquanto jogadores, treinadores e jornalistas esportivos já tinham uma opinião formada. Mas somente os jogadores de elite é que acertavam suas predições: provavelmente, somente eles conseguem “ler” fluentemente os padrões de movimento corporal de outros jogadores, como por exemplo a cinética das pernas na hora do impulso e a flexão dos dedos das mãos- mais especificamente o dedo mindinho, segundo os pesquisadores - na hora em que a bola deixava o jogador.

Enquanto observavam os lances, as fibras nervosas que ligam o córtex motor aos músculos ficavam mais ativas nos jogadores e nos expectadores experientes do que nos iniciantes. Mas tal ativação só ocorria ao assistir a cenas do esporte em que eram especialistas (no caso, basquete); vídeos de chutes a gol não provocavam efeitos. Ao observar uma ação na qual são especialistas, portanto, o córtex cerebral aparentemente é capaz de simular essa ação - o que talvez ajude a permitir aos jogadores acertar mais frequentemente o desfecho do movimento observado (muito importante quando a vitória do seu time está em jogo!).

Curiosamente, somente os jogadores profissionais mostravam ainda uma ativação muscular mais acentuada ao ver a bola deixar as mãos do jogador e prever (acertadamente) que ela não entraria na cesta. Somente os jogadores profissionais é que sentem na pele, ou melhor, na mão, quando uma bola em lançamento terá um destino fracassado! (PfMRI, 01/5/2010)

 

Fonte: Aglioti SM, Cesari P, Romani M & Urgesi C (2008) Action anticipation and motor resonance in elite basketball players. Nature Neuroscience 11(9): 1109 - 1116.

Tuesday
Apr202010

Como morcegos se guiam por sonar em ambientes superlotados?  

Graças aos morcegos, hoje usamos radares para os fins mais variados, de localizar aviões a multar carros em excesso de velocidade. O sistema “inventado” pelos morcegos guia seu voo e a captura de presas mesmo quando sem enxergar – carvernas são escuras! O sonar desses animais, adaptado por humanos com o uso de ondas de rádio (donde o nome “radar”), consiste em sons emitidos pelo morcego que colidem com objetos e são rebatidos de volta ao animal, em uma série de ecos. Esses chegam com “atrasos” (delays) proporcionais à distância em que está o objeto: os mais distantes provocam ecos que demoram mais pra voltar ao animal, enquanto os mais próximos, mais curtos. Isso permite que o morcego calcule a que distância está cada coisa.


Mas o que acontece quando o ambiente é cheio demais, como em uma floresta ou uma caverna cheia de estalactites e outros morcegos, e os ecos se sobrepõem? Como não se confundir quando se é um morcego em uma floresta cheia?


Como outros morcegos, o morcego marrom (Eptesicus fuscus) – um dos mais comuns na América – varia a qualidade dos sons que emite de acordo com o ambiente em que está: a duração, frequência (mais grave ou mais agudo), e amplitude (volume) do sonar. Quando voando por entre a vegetação, o morcego necessita reagir rápido para evitar colisões com galhos ou mesmo pra alcançar sua presa; nessas situações, ele reduz o intervalo entre cada som emitido, obtendo mais informações sobre a distância de casa coisa... desde que cada eco retorne ao morcego antes do próximo som ser emitido. Isso evita o risco de ecos demorados (referentes a objetos mais distantes) serem percebidos erroneamente como ecos de objetos muito próximos, referentes à emissão seguinte, formando “fantasmas”.


Pela mesma razão, o morcego necessita também planejar seu voo e, para isso, ter intervalos longos o suficiente para que o eco do objeto mais distante chegue antes da próxima emissão sonora. Para complicar ainda mais o cérebro desse animal, os ecos de objetos de fundo e de objetos que não são o alvo do seu interesse também podem causar ambiguidade. Como eles não saem “tropeçando” em tudo pelo caminho em ambientes lotados?
Um estudo realizado na Universidade Doshisha, no Japão, explica.


Os pesquisadores simularam em laboratório as condições que os morcegos encontram na vida selvagem com uma sala escura cheia de obstáculos (correntes pendendo do teto). Para observar o comportamento dos animais foram usadas câmeras infravermelhas – sensíveis ao calor – e um pequeno microfone preso ao corpo do animal. A filmagem feita permitiu reconstruir o trajeto dos morcegos – pra saber se eles realmente desviaram das correntes. Já por meio do microfone, os cientistas puderam ter acesso tanto ao som emitido pelos morcegos, quanto aos ecos que eles ouviam.


Após reconstruir o trajeto tridimensional do voo dos morcegos e analisar a gravação do microfone, os pesquisadores perceberam a saída simples dos morcegos. Sempre que suas emissões sonoras ocorrem em intervalos de tempo curtos o suficiente para que essa ambiguidade seja criada, os morcegos utilizam-se de um artifício: emitem um som mais agudo seguido de outro mais grave que o habitual; quanto menor o intervalo (e maior a confusão), maior a diferença de tonalidade. Assim, dá pra saber que o eco mais agudo é referente ao primeiro som, e o mais grave, ao segundo. Tudo isso, sem que os morcegos precisem fazer esforço.

 

Fonte: Hiryua S, Bates ME, Simmons JA, Riquimaroux R (2010) FM Echolocating bats shift frequencies to avoid broadcast-echo ambiguity  in clutter. PNAS 107 (15):7048-53

Friday
Apr092010

Perfume naturalmente atraente

Vários animais são influenciados por substâncias secretadas por membros de sua própria espécie. Algumas dessas substâncias têm aroma reconhecível; outras, como os feromônios, não têm qualquer cheiro, mas também são detectadas pelo nariz.

Feromônios são substâncias químicas pouco voláteis que provocam respostas fisiológicas em animais de mesma espécie. Os feromônios influenciam, por exemplo, a escolha de parceiro sexual: a fêmea preferida, considerada a mais atraente, tende a ser aquela cujo período fértil está mais próximo.

Isso vale para animais não-humanos. E para nós? Até recentemente não havia estudos significativos sobre a influência dessas tais substâncias químicas produzidas por mulheres em período fértil sobre o comportamento sexual dos homens.

Mas Miller e Maner, da Universidade Estadual da Flórida, nos EUA, publicaram em março de 2010 um estudo em que testaram a variação dos níveis de testosterona – hormônio masculino relacionado ao interesse sexual - em homens após cheirar o suor de mulheres em diferentes períodos reprodutivos. E provaram que de fato há uma resposta fisiológica masculina ao aroma de mulheres próximas ao seu período fértil.

A dupla de pesquisadores recrutou jovens mulheres e pediu-lhes que usassem a mesma camiseta para dormir durante três dias – os dias 13, 14 e 15 do ciclo reprodutivo, próximos à ovulação –, e depois uma nova camiseta por outros três dias – dias 20, 21 e 22 do ciclo reprodutivo, distantes da ovulação. No fim de cada noite as mulheres mantinham as camisetas congeladas num saco plástico para evitar que o odor se perdesse ou fosse influenciado por fatores externos.

Alguns dias após a coleta das camisetas, voluntários homens foram designados para cheirá-las. Minutos depois, os níveis de testosterona destes homens foram medidos através de amostras de sua saliva. Os voluntários que cheiraram as camisetas suadas no período fértil feminino apresentavam níveis maiores de testosterona do que aqueles que cheiraram as outras camisetas, indicando que pistas olfativas relativas à ovulação são capazes de afetar a fisiologia masculina. Em comparação, cheirar camisetas "controle", nunca usadas, não afeta os níveis de testosterona nesses homens.

O perfume natural das mulheres tem, portanto, poder de atração sobre os homens, podendo não só ser detectado como também provocar mudanças fisiológicas neles, ainda que inconscientemente.

Embora provem pela primeira vez que os homens respondem fisiologicamente ao aroma de mulheres em período fértil, os pesquisadores ainda não sabem qual é a substância produzida pelas mulheres, nem como ela age nos homens. Novos estudos dirão...

Antes da multimilionária indústria dos perfumes apostar em fragrâncias para aumentar o poder de sedução das mulheres, a natureza já se prestou a tal trabalho. Então, antes de gastar rios de dinheiro em perfumes para atrair o sexo oposto, pense que talvez você já tenha tudo o que precisa exalando do seu próprio corpo, naturalmente, mesmo que você não perceba. (SAC, 09/04/10).

 

Fontes:

Miller Sl, Maner JK (2010) Scent of a Woman: Men's Testosterone Responses to Olfactory Ovulation Cues. Psychological Science 21 (2) 276-283.

Bland E (2010) Women's Natural Scent More Seductive than Perfume. Discovery News 10/02/2010.



Tuesday
Mar302010

E se um ímã puder afetar o seu julgamento moral?

De acordo com um estudo recém-publicado na revista americana PNAS, um ímã aplicado ao lugar certo da cabeça, no momento certo, é capaz de afetar sua capacidade de fazer julgamentos morais, ou seja, decidir o que é certo ou errado. Como resultado, a pessoa "magnetizada" fica menos propensa a condenar o comportamento de pessoas que tentam causar o mal a alguém, mas não conseguem. Soa... moralmente errado, certo? Para Phillip Ball, que escreve a respeito no blog da revista Nature, a descoberta nos traz o mais perto que já chegamos de fantasias paranóides sobre ditadores controlando as mentes alheias.

Mas não é bem assim. Não se trata de encostar um ímã de geladeira na cabeça alheia para que alguém não condene os outros por suas intenções, e sim de lhe aplicar um campo magnético de 2 Tesla (400 vezes mais forte que um ímã de geladeira!) com um aparelho de estimulação magnética transcraniana (TMS, na sigla em inglês), ilustrado ao lado, que fica ligado a uma grande máquina contendo um enorme e pesado capacitor. Quando o capacitor é descarregado, a corrente elétrica aplicada às bobinas em forma de 8 produz um campo magnético que se espalha desimpedido ao cérebro através do crânio; por sua vez, esse campo magnético perturba a atividade elétrica dos neurônios na região específica diretamente abaixo da bobina. Dependendo da intensidade e da frequência da estimulação magnética, o resultado pode ser um aumento da atividade neuronal naquela região ou, ao contrário, uma redução da atividade, efetivamente "desativando" o local.

O objetivo do estudo, feito por Liane Young e colaboradores, incluindo o neurocientista espanhol Alvaro Pascual-Leone, especialista em TMS, e Marc Hauser, interessado em julgamentos morais, era justamente perturbar via TMS a junção têmporo-parietal do lado direito do cérebro, que se acredita ser necessária para que consigamos avaliar as intenções dos outros. Tal avaliação é fundamental quando julgamos, no comportamento alheio, os resultados efetivos e os resultados desejados separadamente.

Por exemplo: Marta troca intencionalmente o açúcar do açucareiro por um veneno em pó branco, semelhante ao açúcar, mas capaz de matar com uma pequena dose, e o oferece junto com o café a Rita. Rita, justo daquela vez, decide tomar seu café sem açúcar, e escapa da morte. Marta agiu certo, ou seu comportamento é condenável?

Donos de uma junção têmporo-parietal saudável são capazes de condenar moralmente o comportamento de Marta apesar do resultado inócuo. Por outro lado, conforme mostram Liane Young e seus colaboradores, a perturbação por TMS da atividade dessa parte do cérebro é capaz de tornar os voluntários do estudo muito mais complacentes, focados agora no resultado (inócuo ou fatal) e não na intenção maléfica do ator da estória. Pessoas autistas parecem ter uma dificuldade semelhante em levar em consideração as intenções alheias, focando-se ao invés disso apenas no resultado das suas ações.

O estudo atesta que a vida em sociedade é calcada muito mais em intenções do que em resultados efetivos - graças, justamente, à capacidade de nossa junção têmporo-parietal em representar a intenção alheia independentemente de seus resultados. Se não fosse assim, não haveria condenações por tentativas de homicídio mal-sucedidas... No final das contas, o que vale é a intenção - seja para o bem ou para o mal. E não será um ímã de geladeira que mudará isso! (SHH, 30/03/2010)

 

Fonte: Young L, Camprodon JA, Hauser M, Pascual-Leone A, Saxe R (2010) Disruption of the right temporoparietal junction with transcranial magnetic stimulation reduces the role of beliefs in moral judgments. Proc Natl Acad Sci USA,