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Friday
12Mar2010

Ansiedade matemática em meninas não vem do berço, e sim de estereótipos... e da professora

O gosto pela matemática divide as opiniões dos estudantes desde que estão nos primeiros anos do ensino fundamental. Há os que adoram o mundo dos números e há os que torcem o nariz só de pensar em fazer uma multiplicação. Muitos destes últimos manifestam uma grande ansiedade em relação à matemática, que pode ser definida como uma resposta emocional desagradável à matemática, e que é mais comum em mulheres do que em homens. O fato dessa ansiedade em relação à matemática ser mais comum em mulheres, ou meninas, é usado por alguns como evidência de que já na infância as mulheres seriam menos aptas para a matemática do que os homens.

Isso, no entanto, não é necessariamente verdade – e, aliás, há evidências de que não há uma inaptidão inata de qualquer dos sexos para a matemática. Ao contrário, a ansiedade em relação à matemática poderia ser... aprendida. E aprendida, por exemplo, da própria professora de matemática.

Isso é o que descobriram Sian Beilock e colegas, da Universidade de Chicago, em uma pesquisa com estudantes e professoras do ensino fundamental nos EUA, onde 90% dos professores do ensino fundamental são mulheres. O grupo testou as habilidades matemáticas e o grau de ansiedade com relação à matemática de 17 professoras da 1ª e 2ª série do ensino fundamental (mas não professores). Também os estudantes, nos três primeiros meses de aula e nos dois últimos, tiveram testadas suas habilidades matemáticas e sua crença no estereótipo acadêmico de gêneros (“meninos são melhores em matemática e meninas são melhores em leitura”). Afinal, seria possível que a ansiedade matemática das professoras levasse a um menor desempenho das alunas em matemática se estas se acreditassem intrinsicamente ineptas, como sua professora, para a matemática.

Para avaliar a crença no estereótipo acadêmico, os pesquisadores contavam duas histórias isoladas sobre um estudante (sem distinção de sexo, o que funciona em inglês) bom em matemática e um estudante (também sem distinção de sexo) bom em leitura e pediam às crianças para desenhar cada um dos personagens. Os cientistas perguntavam, então, às crianças se os personagens que haviam desenhado eram menino ou menina. O exercício foi realizado duas vezes: no início e no fim do ano letivo.

Resultado: no fim, mas não no início do ano letivo, as meninas lecionadas por professoras com ansiedade matemática tinham maior propensão a acreditar no estereótipo “meninos são bons em matemática e meninas são boas em leitura”. Ao final do ano, essas meninas, alunas de professoras com ansiedade matemática, também tinham menor desempenho matemático em relação aos meninos de sua classe e em relação às meninas da mesma classe que não acreditavam no estereótipo – embora no começo do ano todos tivessem desempenho igual. Os meninos, aliás, não parecem ser afetados pela ansiedade da professora, tenham eles ou não crença no estereótipo acadêmico.

A influência da ansiedade das professoras somente sobre as meninas pode ser atribuída ao fato de crianças em idade escolar (1a e 2a séries) tenderem a se espelhar nos adultos de mesmo sexo para compor seu repertório de comportamentos socialmente aceitáveis. Além disso, essas crianças já conhecem crenças comumente aceitas sobre gêneros e habilidades a elas atribuídas, e tendem a adotar comportamentos e atitudes que elas pensam ser adequados a cada sexo. Sendo assim, se a professora demonstra ansiedade em relação à disciplina e o senso comum diz que os meninos são melhores do que as meninas em matemática, muitas meninas acreditam nisso e sentem-se desmotivadas em desafios matemáticos. Essa falta de motivação tem uma influência direta no desempenho dessas meninas, que acaba sendo pior do que o esperado. Aliada à aceitação do estereótipo, a ansiedade matemática da professora, portanto, leva a queda do desempenho na disciplina, mesmo que a pessoa tenha habilidades suficientes para obter sucesso com os números.

Não se deve, contudo, colocar a culpa só na professora: há muitas outras fontes prováveis de influência no desempenho matemático das meninas, como professoras anteriores, pais, mães e irmãos, que reforçam ou não o estereótipo de habilidades acadêmicas.

O importante é lembrar que o desempenho geral de meninas e meninos não apresenta diferenças inatas: as habilidades são as mesmas entre os sexos, e o que difere é o estímulo que é dado a meninos e meninas para desenvolver suas competências. (SAC, 12/03/10).

 

Fontes: Beilock SL, Gunderson EA, Ramirez G, Levine SC (2010) Female teacher´s math anxiety affect girls’ math achievement. PNAS 107, 1860-1863.

Para ler mais: veja Mulheres e matemática, aqui nO Cérebro Nosso de Cada Dia.

 

 

 

Wednesday
10Mar2010

A recuperação escolar sob investigação científica

Na época do colégio, muitos experimentam a sensação de chegar ao final de uma disciplina e não obter a nota suficiente para passar de ano. Solução? O período de reforço do aprendizado conhecido como “recuperação”, verdadeiro pesadelo para alguns!

Para o desespero dos que esperneiam dizendo que não necessitam de reforço, ou que o reforço não adianta nada, um artigo na revista Neuron de dezembro de 2009 apresenta justamente os benefícios para o cérebro dos alunos que passam por tal período de remediação.

Timothy Keller e Marcel Just, da Universidade Carnegie Mellon em Pittsburgh, EUA, recrutaram crianças em idade escolar com nível de leitura baixo e os separaram em dois grupos: um deles recebeu somente o ensino formal, enquanto o outro passou adicionalmente por aulas de reforço direcionadas para melhorar a capacidade de decodificar fonemas. Comparada às duas semanas usuais de duração da recuperação escolar, a recuperação no estudo foi anormalmente longa: os alunos passaram por 100 horas de estudo remedial, distribuídos em 6 meses, com aulas diárias de 50 minutos, 5 vezes ao semana.

Em crianças com dificuldades de leitura, já havia sido observada uma redução da substância branca semioval do cérebro, que é a porção da substância branca onde se encontram as fibras que conectam os lobos frontal, parietal e temporal, trocando informações necessárias para a leitura. Essa redução pode resultar tanto de uma deficiência de mielinização quanto de uma redução da espessura das fibras ou até do seu número. Com uma menor conectividade entre os lobos cerebrais, a leitura ficaria prejudicada.

Em comparação, Keller e Just observaram que, ao fim dos seis meses do estudo, os alunos submetidos ao programa de recuperação, e somente eles, tiveram um aumento da substância branca semioval. O aumento ocorreu no sentido do envoltório das fibras, o que leva a crer que o efeito da recuperação é um espessamento da bainha de mielina dos axônios da substância branca, que confere isolamento elétrico aos impulsos nervosos que trafegam pelos axônios, tornando a transmissão de sinais mais rápida e fidedigna – o que provavelmente facilita a leitura. De fato, as crianças que fizeram a recuperação, e não as outras, tiveram uma melhora na capacidade de decifrar palavras.

Ou seja: ficar em recuperação pode ser um sofrimento – mas, se serve de consolo, ela é sim capaz de mudar o cérebro! (PfMRI, 10/03/2010)

 

Fonte: Keller AT, Just MA (2009). Altering Cortical Connectivity: Remediation-Induced Changes in the White Matter of Poor Readers. Neuron. Dec;64(5): 624-631.

Tuesday
09Mar2010

Médicos frios: você quer um desses 

O cérebro humano é dotado da capacidade automática de empatia: quando é exposto ao sofrimento de outra pessoa, ou mesmo o imagina, ele se importa como se a dor alheia fosse sua. A empatia, portanto, é essa mimetização da reação do cérebro do outro. Assim, o sorriso do outro nos alegra e o seu sofrimento... dói.

Entretanto, a reação dos profissionais da área da saúde ao sofrimento alheio parece distinta da empatia que as demais pessoas experimentam. Será esse um embotamento emocional aprendido por prática e necessidade, para sobreviver à própria profissão? Será que, ao contrário, só se torna médico quem consegue não sofrer junto com o paciente? Será que os médicos de fato não empatizam com seus pacientes, ou apenas não o demonstram? 

O fenômeno da empatia à dor se dá em duas etapas: uma inicial, automática e relacionada à afetividade, e uma posterior, de avaliação cognitiva. Estudos de neuroimagem já haviam demonstrado que, ao ver alguém ser espetado por uma agulha, o cérebro de pessoas “comuns” (leia-se não médicas) tem rapidamente ativados circuitos, como o córtex cingulado dorsal e a ínsula anterior, envolvidos no processamento afetivo da dor – como se ela fosse sua. Daí a aflição e a compreensão da dor do outro. No cérebro dos médicos, ao contrário, essas regiões não são ativadas, mas outras são, envolvidas com atenção e função executivas e autocontrole – como se o médico fizesse força para ignorar o sofrimento alheio, e acabasse conseguindo. Mas uma outra interpretação seria possível: a própria falta de empatia poderia se tornar automática nos médicos.

Um estudo publicado na revista NeuroImage desvendou o mistério. Pesquisadores do grupo de Jean Decety acompanharam a dinâmica da atividade elétrica dos cérebros de médicos e não-médicos, registrada pelo EEG, enquanto esses assistiam a cenas de pessoas sendo espetadas por uma agulha ou tocadas por um cotonete. Descobriram que, tanto no momento inicial (apenas um décimo de segundo após o estímulo visual – relacionado ao componente afetivo) quanto em um posterior (também em menos de meio segundo – associado ao caráter cognitivo), o cérebro dos médicos se comporta da mesma forma ao assistir às situações dolorosas ou não, enquanto o dos outros reage de forma diferente a cada uma dessas situações.  

Esses resultados sugerem que a modulação negativa da empatia à dor que ocorre nos médicos se dá tanto em um nível automático quanto cognitivo. E comprovam que – sim! – os médicos são mais frios quanto à dor alheia, como vários pacientes já reclamam.

Mas é justamente essa “frieza”, essa tolerância, que permite que os médicos realizem seus trabalhos. Um ortopedista desesperado com uma fratura nunca conseguiria repará-la. Um pediatra que experimentasse a mesma sensação dos pais de uma criança que se machuca teria comprometida sua capacidade de ajudar, pois a empatia pode levar a um estado geral de alarme e ansiedade. Com a exposição sucessiva, seu próprio bem-estar ficaria prejudicado – e, com isso, sua habilidade médica. A “falta” de empatia do médico pode incomodar. Mas pense bem: em uma emergência, você preferiria ser atendido por um médico tranquilo que resolve o problema rapidamente ou por um médico que se desespera e chora junto com você? (ACMAC, 09/03/2010)

 

 

Fonte: Decety J, Yang C, Cheng Y (2010) Physicians down-regulate their pain empathy response: An event-related brain potential study

Monday
08Mar2010

Música sob medida para tratar o tinnitus

Uma das ironias de começar a perder a audição é que muitas vezes a perda vem associada a um ganho indesejado: o tinnitus, aquele zzzzzzziiiiiiiiiiiimmmm permanente que pode ser forte o suficiente para afetar a qualidade de vida de 1 a 3% da população.

Pesquisas recentes indicam que a fonte do tinnitus está no cérebro, em uma reorganização problemática do córtex auditivo, provavelmente como resultado da perda auditiva na orelha interna. Essa perda inicialmente reduz a atividade na parte do córtex responsável por ouvir sons na faixa de frequências afetada, mas, com o tempo, essa região subutilizada do córtex auditivo seria invadida pelas vizinhas e, na falta do controle normal pelo equilíbrio entre os vários sons naturais, acabaria ficando ativa demais, gerando um som fantasma (equivalente ao membro fantasma que ocorre nos amputados). Esse som fantasma é o tinnitus, que é mais intenso quanto mais forte é a ativação anormal do córtex auditivo. E agora a notícia realmente ruim: até hoje não há tratamento.

Mas só até hoje. Foi pensando justamente na reorganização do córtex que a equipe de Christo Pantev, na Alemanha, decidiu virar o feitiço contra o feiticeiro. Se o tinnitus é causado por ativação excessiva de uma região do córtex, então deixá-la sem atividade, enquanto as demais funcionam, talvez produzisse uma nova reorganização no sentido desejado de reduzir o tinnitus.

O tratamento escolhido foi manipular as músicas preferidas de voluntários com tinnitus, eliminando das músicas todos os sons na oitava ao redor da frequência do som do tinnitus. O resultado soa próximo o suficiente do original para ainda ser considerado prazeroso, e ouvido com assiduidade como um verdadeiro tratamento. Como controle, a equipe testou em um outro grupo de pacientes músicas manipuladas para não terem outra oitava, que não incluia a frequência do tinnitus.

Resultado: com seis meses de 12 horas semanais de audição das músicas manipuladas, a intensidade do tinnitus já havia caído 20%, com efeitos na maioria dos pacientes, e em 12 meses, o tratamento havia surtido efeitos em todos, com redução média de 30% no volume do tinnitus, associada, como esperado, a uma redução da atividade anormal no córtex auditivo. O grupo controle, por outro lado, não teve melhoria alguma. O tratamento, portanto, não é simplesmente ouvir música, mas ouvir músicas que não têm sons na faixa de frequência do tinnitus.

A notícia é uma grande conquista para quem sofre de tinnitus: trata-se não só do primeiro tratamento comprovadamente eficaz contra o tinnitus, como também de uma terapia ao mesmo tempo barata, prazeirosa e sem contra-indicação. Só faltou eliminar completamente o tinnitus. Mas talvez isso seja apenas uma questão de tempo... (SHH, 08/03/2010)

 

Fonte: Okamoto H, Stracke H, Stoll W, Pantev C (2010) Listening to tailor-made notched music reduces tinnitus loudness and tinnitus-related auditory cortex activity. Proc Natl Acad Sci USA 107, 1207-1210.

Friday
05Mar2010

O cheiro influencia o gosto e o gosto influencia o cheiro

O olfato e o paladar são sentidos intimamente ligados. O que chamamos de “sabor” é uma combinação de cheiros, gostos e texturas na boca. Gripados, com o nariz entupido, a comida perde o gosto, pois a percepção do sabor é alterada devido ao olfato prejudicado.

Não se contava, contudo, que o paladar também influenciasse o olfato. Essa integração multisensória é foco de um estudo de Fortis-Santiago e colegas, da Universidade Brandeis, nos Estados Unidos. Fazendo testes com ratos, a equipe constatou que a inativação do córtex gustativo altera a percepção de cheiros.

Os testes empregaram dois ratos: o primeiro, o demonstrador, ingeria uma ração A, diferente de outra ração B, e posteriormente era colocado em contato com um segundo rato, o sujeito do experimento. Este último era então separado e exposto aos dois tipos de ração, A e B. A grande maioria desses ratos escolhia a mesma ração que o demonstrador havia ingerido, influenciados pelo cheiro dela no hálito do primeiro rato. Porém, quando o córtex gustativo do rato teste era temporariamente inativado apenas durante o contato com o demonstrador ou durante a escolha do alimento, não havia predileção por nenhuma das rações – como se o sujeito não mais reconhecesse o sabor da comida. Se, contudo, o córtex gustativo era inativado durante a exposição ao demonstrador e novamente enquanto o animal escolhia entre as rações, o animal surpreendentemente mostrava predileção pela ração “cheirada” no hálito do outro. Os pesquisadores consideram que isso é um exemplo de dependência de estado nos circuitos neurais: um cheiro/gosto detectado com o córtex gustativo inativado somente será o mesmo quando o córtex gustativo estiver novamente inativado.

A integração da informação gustativa e olfativa, portanto, é recíproca: sabores dependem do olfato, mas o olfato por sua vez pode depender de gostos. Um alimento não é só cheiro ou gosto, mas uma percepção complexa que o cérebro constrói a partir dos sentidos. (SAC, 05/03/10)

Veja mais sobre o assunto "sabor" no episódio de Neurológica abaixo.

 

Fontes:

Fortis-Santiago Y, Rodwin B A, Neseliler S, Piette C E, Katz D (2010) State dependency of olfactory perception as a function of taste cortical inactivation, Nature Neuroscience 13, 158-159.

Yeshurum Y, Sobel N (2010) Multisensory integration: an inner tongue puts an outer nose in context, Nature Neuroscience 13, 148-149.