Terapia gênica faz macacos adultos enxergarem mais cores
Você provavelmente enxerga mais cores diferentes do que seu monitor oferece. Isso é possível porque a maioria dos humanos é tricromata: possui três tipos de pigmentos na retina capazes de absorver luz em comprimentos de onda diferentes, na faixa do azul, do verde, e do vermelho. Ao fazer a comparação entre eles, seu cérebro cria uma gigantesca palheta de cores - assim como a televisão, ao exibir pequenos pontos de luz verde, vermelha, ou azul.
Algumas pessoas, no entanto, não têm um desses pigmentos, por razões genéticas. Se por exemplo falta o pigmento sensível à faixa de luz do verde, ou do vermelho, o resultado é o daltonismo verde-vermelho: a pessoa consegue diferenciar o azul do amarelo e o azul do verde, mas não diferencia tons de verde de tons de vermelho - ou de cinza, na verdade. Note que isso não significa que o daltônico "não enxerga o que estiver em verde"; ele enxerga, mas da mesma cor que ele enxerga o vermelho. Que sensação de cor é essa que é igual para o verde e o vermelho? É impossível para um tricromata saber... assim como já não sabemos se o nosso "vermelho" é o mesmo "vermelho" que o do vizinho; tudo o que sabemos é que concordamos sobre o que chamar de "vermelho".
Voltando ao assunto: por razões da natureza que não vêm ao caso, macacos-de-cheiro machos são naturalmente daltônicos (dicromatas), enquanto as fêmeas podem ser tricromatas - o que pode ser determinado por testes comportamentais adaptados desse do alto da página. Aproveitando esse daltonismo natural, Kathleen Mancuso e sua equipe, na Universidade de Washington, nos EUA, partiram para responder uma pergunta aparentemente simples, mas na verdade não trivial: se o gene que falta (o da L-opsina, pigmento sensível ao vermelho) pudesse ser reintroduzido no genoma do animal adulto, tornando as células que deveriam detectar o espectro do vermelho de fato sensíveis a essas cores, isso bastaria para que o animal passasse a diferenciar o verde do vermelho?
A questão não é trivial porque o consenso entre os especialistas em visão é que o córtex precisa aprender a enxergar, no começo da vida após o nascimento: precisa aprender a diferenciar formas, objetos, a combinar as imagens dos dois olhos. E precisaria também aprender a enxergar cores, por um mecanismo de comparação entre os comprimentos de onda detectados em cada ponto da imagem ou ao seu redor, o que requer uma organização anatômica específica das vias que levam informação dos olhos até o córtex visual.
E, no entanto, a terapia gênica aplicada por Mancuso e sua equipe aos macacos daltônicos... funcionou. Seis meses após receberem injeções intraoculares de um vírus portando o gene da L-opsina, os animais incorporaram o gene em seus fotorreceptores na retina, que se tornaram sensíveis à luz vermelha - e, ao mesmo tempo, agora passavam em testes de discriminação de objetos verdes ou vermelhos. Até a conclusão do experimento, um ano mais tarde, os animais continuavam funcionalmente tricromatas.
O sucesso da terapia gênica para transformar dicromatas em tricromatas sugere que a evolução da visão de cores em três comprimentos de onda, como a nossa, pode ter sido muito mais simples e rápida do que se pensa, bastando o aparecimento de um novo pigmento visual, sem que tenha sido necessária uma grande reorganização anatômica das vias visuais.
Deve ser uma experiência e tanto. Pense só: em princípio, seria possível receber em seus olhos uma injeção do gene para uma opsina sensível a ultravioleta e, alguns meses depois, conforme o gene passa a ser expresso em sua retina, começar a enxergar... ultravioleta. Um mundo novo se revelaria aos seus olhos. Em uma versão mais modesta, limitada ao espectro habitualmente visível, é a perspectiva dos autores do estudo: um dia poder, graças à terapia gênica, oferecer visão colorida a quem não tem.
Fonte: Mancuso K, Hauswirth WW, Li Q, Connor TB, Kuchenbecker JA, Mauck MC, Neitz J, Neitz M (2009) Gene therapy for red-green colour blindness in adult primates. Nature 461, 784-788.
Wednesday, November 18, 2009 at 04:36AM
suzanahh |
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