Andando em círculos
Diz a lenda - e vários livros e filmes também - que quem se perde começa a andar em círculos. Para determinar se isso é verdade, quatro pesquisadores do Instituto Max-Planck para Cibernética Biológica, em Tübingen, na Alemanha, convidaram 15 voluntários a andar por várias horas "em linha reta" em uma floresta, no deserto do Saara, ou, de olhos vendados, em um campo de aviação - enquanto sua localização e trajetória eram registradas por GPS (para ninguém de fato se perder...).
Resultado: enquanto o sol ou a lua estavam visíveis no céu, os participantes conseguiam manter uma trajetória em linha reta, na direção indicada, apesar de andarem sem a ajuda de qualquer aparelho ou mapa - e apesar da posição aparente do sol mudar ao longo do caminho. Isso indica que nosso sistema interno de localização sabe usar a posição do sol para corrigir sua trajetória, sem contudo se deixar levar por ela.
Mas era só o sol ou a lua desaparecer atrás das nuvens ou do horizonte e o que começara como uma trajetória reta se tornava instantaneamente uma sequência de círculos intercalados com trechos mais ou menos retos - apesar dos voluntários terem os olhos bem abertos e atentos a marcos na paisagem. De olhos vendados no campo de aviação, alguns voluntários andavam sistematicamente em círculos, enquanto outros iam e viam, alternando trechos retos com outros circulares, várias vezes passando de novo e de novo pelo mesmo lugar - embora ainda achassem que estavam "andando em linha reta", como solicitado. Na prática, nenhum deles se afastou muito mais do que 100 metros do ponto de partida, apesar de andarem por dezenas de minutos.
Por que é tão difícil manter uma trajetória reta sem o sol no céu? Por que é mais difícil ainda sem informação visual, mesmo que você antes pudesse enxergar a sua direção e depois ainda possa continuar a visualizá-la mentalmente? O grupo mostra que não é uma questão de preferência por uma das pernas, nem de diferença de força entre elas, nem de comprimento das pernas. A explicação favorecida pelo grupo é o acúmulo de ruído com o tempo na representação mental do que cada voluntário considera "a direção a seguir", já que todos os voluntários conseguiam manter a direção inicial bastante bem pelos primeiros 20 metros quando vendados - mas depois começavam a desviar e andar em círculos sem nenhuma direção definida.
A dica, portanto, é clara: se você tiver um longo caminho a percorrer sem mapa ou bússola, contando apenas com marcos visuais (no escuro, então, pior ainda), só o faça enquanto o sol ou a lua estiverem visíveis acima do horizonte. Nublou, parou! (SHH, 19/11/2009)
Fonte: Souman JL, Freissen I, Sreenivasa MN, Ernst MO (2009) Walking straight into circles. Curr Biol 19, 1538-1542.
Thursday, November 19, 2009 at 03:25PM
suzanahh |
Post a Comment | in
comportamento,
curiosidades |
Email Article 


Reader Comments