‘La vida no es la que uno vivió , sino la que uno recuerda y cómo la recuerda para contarla.’
"A vida não é a que se viveu, mas a que se tem na lembrança da maneira como é recordada para se contar."
Gabriel Garcia Márquez
O livro Cem anos de solidão garantiu ao escritor colombiano Gabriel García Marquéz o prêmio Nobel da literatura em 1982, quinze anos depois da sua primeira publicação. Tal obra foi, e ainda é, considerada um marco na literatura latino-americana e a precursora do realismo fantástico. A narrativa conta a história da família Buendía, desde a fundação da cidade de Macondo pelo casal José Arcádio Buendía e sua esposa Úrsula Iguarán até a sexta geração de seus descendentes. Situações fantasiosas e místicas surgem no decorrer da historia, o que enriquece a leitura e sua interpretação.
Uma dessas situações fictícias é o surgimento de uma praga que faz com que todos os habitantes de Macondo fiquem com insônia. Como já não se fosse atordoante o suficiente, as pessoas ainda começam a ter surtos de esquecimento: esquecem o nome das coisas e também o seu uso. A epidemia é representada como uma catástrofe diária, na qual os habitantes, sem saber os sentidos das palavras, são incapazes de se comunicar. José Arcádio Buendía, o protagonista, lidera o combate à praga e constrói a máquina da memória, uma enciclopédia para lembrar os habitantes de um mundo que perdeu seu significado. Com ela, os cidadãos de Macondo podem acordar de manhã e rever todo o conhecimento adquiridos durante uma vida.
No livro, não há neurologistas que investiguem a situação, e tampouco isso é importante. Mas em 2009, um grupo de pesquisadores do Departamento de Neurologia da Universidade de São Francisco, na Califórnia, decidiu analisar o caso fictício dos habitantes de Macondo. Os pesquisadores reconheceram na descrição das características dessa praga, inventada por Garcia Márquez em 1967, os sintomas de demência semântica reconhecida pela primeira vez na literatura somente em 1975: a quebra do conhecimento relativo à memória do dia-a-dia e a perda do significado de palavras específicas, nomes de familiares e de objetos do cotidiano. Os pacientes com demência semântica apresentam perturbações de linguagem, substituem palavras específicas por um termo geral (“cadeira” por “objeto”), e trocam um nome por outro dentro de uma mesma categoria (“cachorro” por “rinoceronte”). Por esse motivo, pessoas com demência semântica podem discursar fluentemente, mas sem sentido.
Pacientes com demência semântica são capazes de reproduzir uma imagem em desenho, como os animais na ilustração abaixo à esquerda. Já desenhar os mesmos animais a partir da palavra que os nomeia é difícil, como mostra a ilustração à direita.
Garcia Márquez descreveu de maneira fictícia, mas precisa, como a demência semântica afeta a vida cotidiana. O que muda quando não há mais nomes para as coisas, ou eles não fazem mais sentido? As estratégias utilizadas em Macondo para contornar a dificuldade, como a máquina da memória, são análogas aos métodos usados por pacientes com a síndrome, como registrar detalhes de sua vida em um diário – todos com um mesmo desejo de tornar seu conhecimento semântico permanente. (JR, 16/08/2011)
Fonte: Rascovsky R, Growdon ME, Pardo IR, Grossman S, Miller BR (2009) “The quicksand of forgetfulness”: semantic dementia in One Hundred Years of Solitude. Brain 132: 2609-2616.