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Wednesday
Aug242011

Quer comer menos? Escolha um prato menor

Não, não é só porque vai caber menos comida. De acordo com Brian Wansink, pesquisador da Universidade Cornell, nos EUA, muitas pessoas usam a visão do fundo do prato vazio, ao invés do estômago cheio ou o cérebro saciado, como sinal de que já comeram o suficiente. Se o fundo do prato demora a ficar vazio - por exemplo, porque a comida está espalhada por todo ele, ou porque o prato "magicamente" se completa de novo (por um truque do pesquisador), come-se bem mais - mas tem-se a impressão de que a refeição foi apenas normal.

Conclusão: é mais fácil parar após comer meia tacinha de sorvete do que depois de comer só metade de uma taçona...

Tuesday
May252010

A areia movediça do esquecimento: a neurologia de Cem anos de solidão

‘La vida no es la que uno vivió , sino la que uno recuerda y cómo la recuerda para contarla.’

"A vida não é a que se viveu, mas a que se tem na lembrança da maneira como é recordada para se contar."

Gabriel Garcia Márquez

 

O livro Cem anos de solidão garantiu ao escritor colombiano Gabriel García Marquéz o prêmio Nobel da literatura em 1982, quinze anos depois da sua primeira publicação. Tal obra foi, e ainda é, considerada um marco na literatura latino-americana e a precursora do realismo fantástico. A narrativa conta a história da família Buendía, desde a fundação da cidade de Macondo pelo casal José Arcádio Buendía e sua esposa Úrsula Iguarán até a sexta geração de seus descendentes. Situações fantasiosas e místicas surgem no decorrer da historia, o que enriquece a leitura e sua interpretação.

Uma dessas situações fictícias é o surgimento de uma praga que faz com que todos os habitantes de Macondo fiquem com insônia. Como já não se fosse atordoante o suficiente, as pessoas ainda começam a ter surtos de esquecimento: esquecem o nome das coisas e também o seu uso. A epidemia é representada como uma catástrofe diária, na qual os habitantes, sem saber os sentidos das palavras, são incapazes de se comunicar. José Arcádio Buendía, o protagonista, lidera o combate à praga e constrói a máquina da memória, uma enciclopédia para lembrar os habitantes de um mundo que perdeu seu significado. Com ela, os cidadãos de Macondo podem acordar de manhã e rever todo o conhecimento adquiridos durante uma vida.

No livro, não há neurologistas que investiguem a situação, e tampouco isso é importante. Mas em 2009, um grupo de pesquisadores do Departamento de Neurologia da Universidade de São Francisco, na Califórnia, decidiu analisar o caso fictício dos habitantes de Macondo. Os pesquisadores reconheceram na descrição das características dessa praga, inventada por Garcia Márquez em 1967, os sintomas de demência semântica reconhecida pela primeira vez na literatura somente em 1975: a quebra do conhecimento relativo à memória do dia-a-dia e a perda do significado de palavras específicas, nomes de familiares e de objetos do cotidiano. Os pacientes com demência semântica apresentam perturbações de linguagem, substituem palavras específicas por um termo geral (“cadeira” por “objeto”), e trocam um nome por outro dentro de uma mesma categoria (“cachorro” por “rinoceronte”). Por esse motivo, pessoas com demência semântica podem discursar fluentemente, mas sem sentido.

Pacientes com demência semântica são capazes de reproduzir uma imagem em desenho, como os animais na ilustração abaixo à esquerda. Já desenhar os mesmos animais a partir da palavra que os nomeia é difícil, como mostra a ilustração à direita.

Garcia Márquez descreveu de maneira fictícia, mas precisa, como a demência semântica afeta a vida cotidiana. O que muda quando não há mais nomes para as coisas, ou eles não fazem mais sentido? As estratégias utilizadas em Macondo para contornar a dificuldade, como a máquina da memória, são análogas aos métodos usados por pacientes com a síndrome, como registrar detalhes de sua vida em um diário – todos com um mesmo desejo de tornar seu conhecimento semântico permanente. (JR, 16/08/2011)

 

Fonte: Rascovsky R, Growdon ME, Pardo IR, Grossman S, Miller BR (2009) “The quicksand of forgetfulness”: semantic dementia in One Hundred Years of Solitude. Brain 132: 2609-2616.

Tuesday
May252010

Concreto, abstrato e como são representados no cérebro

Por definição, concreto é o que se pode experimentar sensorialmente, enquanto abstrato, o oposto. Para entender como o cérebro representa esses tipos de conceitos, um artigo publicado na revista Human Brain Mapping em 2010 reuniu e analisou dados de 19 estudos de neuroimagem sobre como o cérebro lida com o abstrato e o concreto.


Lidar mentalmente com conceitos abstratos ativa mais fortemente o giro inferior frontal e o giro temporal médio, ambos do lado esquerdo, relacionados ao processamento verbal, do que conceitos concretos. Por outro lado, lidar com conceitos concretos aumenta a atividade no córtex precúneo esquerdo, giro para-hipocampal, cingulado posterior e giro fusiforme – áreas envolvidas com a percepção sensorial. O estudo sugere, portanto, que ambos os conceitos concretos e abstratos teriam uma representação comum verbal, enquanto os concretos teriam uma representação adicional por visualização mental, semelhante a uma experiência sensorial, mas que ocorre mesmo na ausência do estímulo externo.


A diferença de tratamento cerebral dedicado aos dois tipos de conceitos pode explicar como as palavras concretas são aprendidas mais cedo e reconhecidas mais rapidamente, por exemplo, graças à possibilidade de se formar imagens mentais desses conceitos: é mais fácil visualizar mentalmente um martelo do que a liberdade. (ACMAC, 25/05/2010)

 

 

Fonte: Wang J, Conder JA, Blitzer DN, Shinkareva SV (2010) Neural representation of abstract and concrete concepts: A meta-analysis of neuroimaging studies. Human Brain Mapping 27.

Saturday
May012010

Previsão do futuro: o que atletas de elite têm que você não tem

Ao ver um jogador de basquete fazendo um lance livre, você conseguiria dizer, só pelos seus movimentos iniciais, se ele vai acertar a cesta? Provavelmente não. Treinadores e jornalistas esportivos até conseguem prever o resultado de alguns lances. Mas, segundo um estudo publicado na revista Nature Neuroscience em 2008, jogadores profissionais preveem com bastante acurácia o resultado desses lances.

No estudo, jogadores profissionais, treinadores ou jornalistas esportivos e iniciantes assistiram a clipes de lances livres, editados previamente para que só mostrassem o lance até um certo ponto do movimento. A tarefa dos participantes era decidir o destino da bola: ela “entra”, “não entra”, ou o participante não conseguia decidir.

Uma pessoa que tentasse adivinhar sem nenhuma base o destino da bola deveria acertar se ela entra ou não na cesta 50% das vezes, em média. Os jogadores de elite acertaram suas predições em 67% das vezes, mas treinadores e jornalistas esportivos e o grupo dos iniciantes somente acertaram 44% e 40% dos lances, respectivamente. Se treinadores passam tanto tempo quanto os jogadores que eles treinam acompanhando bolas voando em direção à cesta, por que somente os jogadores conseguem antecipar o resultado dos lances?

A diferença está na capacidade dos jogadores de elite de prever rapidamente o destino da bola - o que é de se esperar pela exigência de decisões rápidas neste jogo frenético. Ao assistir a clipes mais curtos em que a bola não chegava a sair das mãos do jogador, os iniciantes nem arriscavam um palpite sobre se a bola entraria ou não, enquanto jogadores, treinadores e jornalistas esportivos já tinham uma opinião formada. Mas somente os jogadores de elite é que acertavam suas predições: provavelmente, somente eles conseguem “ler” fluentemente os padrões de movimento corporal de outros jogadores, como por exemplo a cinética das pernas na hora do impulso e a flexão dos dedos das mãos- mais especificamente o dedo mindinho, segundo os pesquisadores - na hora em que a bola deixava o jogador.

Enquanto observavam os lances, as fibras nervosas que ligam o córtex motor aos músculos ficavam mais ativas nos jogadores e nos expectadores experientes do que nos iniciantes. Mas tal ativação só ocorria ao assistir a cenas do esporte em que eram especialistas (no caso, basquete); vídeos de chutes a gol não provocavam efeitos. Ao observar uma ação na qual são especialistas, portanto, o córtex cerebral aparentemente é capaz de simular essa ação - o que talvez ajude a permitir aos jogadores acertar mais frequentemente o desfecho do movimento observado (muito importante quando a vitória do seu time está em jogo!).

Curiosamente, somente os jogadores profissionais mostravam ainda uma ativação muscular mais acentuada ao ver a bola deixar as mãos do jogador e prever (acertadamente) que ela não entraria na cesta. Somente os jogadores profissionais é que sentem na pele, ou melhor, na mão, quando uma bola em lançamento terá um destino fracassado! (PfMRI, 01/5/2010)

 

Fonte: Aglioti SM, Cesari P, Romani M & Urgesi C (2008) Action anticipation and motor resonance in elite basketball players. Nature Neuroscience 11(9): 1109 - 1116.

Tuesday
Apr202010

Como morcegos se guiam por sonar em ambientes superlotados?  

Graças aos morcegos, hoje usamos radares para os fins mais variados, de localizar aviões a multar carros em excesso de velocidade. O sistema “inventado” pelos morcegos guia seu voo e a captura de presas mesmo quando sem enxergar – carvernas são escuras! O sonar desses animais, adaptado por humanos com o uso de ondas de rádio (donde o nome “radar”), consiste em sons emitidos pelo morcego que colidem com objetos e são rebatidos de volta ao animal, em uma série de ecos. Esses chegam com “atrasos” (delays) proporcionais à distância em que está o objeto: os mais distantes provocam ecos que demoram mais pra voltar ao animal, enquanto os mais próximos, mais curtos. Isso permite que o morcego calcule a que distância está cada coisa.


Mas o que acontece quando o ambiente é cheio demais, como em uma floresta ou uma caverna cheia de estalactites e outros morcegos, e os ecos se sobrepõem? Como não se confundir quando se é um morcego em uma floresta cheia?


Como outros morcegos, o morcego marrom (Eptesicus fuscus) – um dos mais comuns na América – varia a qualidade dos sons que emite de acordo com o ambiente em que está: a duração, frequência (mais grave ou mais agudo), e amplitude (volume) do sonar. Quando voando por entre a vegetação, o morcego necessita reagir rápido para evitar colisões com galhos ou mesmo pra alcançar sua presa; nessas situações, ele reduz o intervalo entre cada som emitido, obtendo mais informações sobre a distância de casa coisa... desde que cada eco retorne ao morcego antes do próximo som ser emitido. Isso evita o risco de ecos demorados (referentes a objetos mais distantes) serem percebidos erroneamente como ecos de objetos muito próximos, referentes à emissão seguinte, formando “fantasmas”.


Pela mesma razão, o morcego necessita também planejar seu voo e, para isso, ter intervalos longos o suficiente para que o eco do objeto mais distante chegue antes da próxima emissão sonora. Para complicar ainda mais o cérebro desse animal, os ecos de objetos de fundo e de objetos que não são o alvo do seu interesse também podem causar ambiguidade. Como eles não saem “tropeçando” em tudo pelo caminho em ambientes lotados?
Um estudo realizado na Universidade Doshisha, no Japão, explica.


Os pesquisadores simularam em laboratório as condições que os morcegos encontram na vida selvagem com uma sala escura cheia de obstáculos (correntes pendendo do teto). Para observar o comportamento dos animais foram usadas câmeras infravermelhas – sensíveis ao calor – e um pequeno microfone preso ao corpo do animal. A filmagem feita permitiu reconstruir o trajeto dos morcegos – pra saber se eles realmente desviaram das correntes. Já por meio do microfone, os cientistas puderam ter acesso tanto ao som emitido pelos morcegos, quanto aos ecos que eles ouviam.


Após reconstruir o trajeto tridimensional do voo dos morcegos e analisar a gravação do microfone, os pesquisadores perceberam a saída simples dos morcegos. Sempre que suas emissões sonoras ocorrem em intervalos de tempo curtos o suficiente para que essa ambiguidade seja criada, os morcegos utilizam-se de um artifício: emitem um som mais agudo seguido de outro mais grave que o habitual; quanto menor o intervalo (e maior a confusão), maior a diferença de tonalidade. Assim, dá pra saber que o eco mais agudo é referente ao primeiro som, e o mais grave, ao segundo. Tudo isso, sem que os morcegos precisem fazer esforço.

 

Fonte: Hiryua S, Bates ME, Simmons JA, Riquimaroux R (2010) FM Echolocating bats shift frequencies to avoid broadcast-echo ambiguity  in clutter. PNAS 107 (15):7048-53