O ponto sem volta
A cena se tornou familiar, graças aos seriados médicos da TV a cabo: "Clear!", avisa a médica aos colegas da equipe enquanto posiciona os eletrodos sobre o tórax do paciente desacordado para tentar fazer seu coração voltar a bater.
Se por um lado um coração assistólico ainda pode voltar a bater com uma ajudinha elétrica externa, na prática somente 44% das vítimas de parada cardíaca submetidas à ressucitação elétrica de fato recuperam a circulação sanguínea. O que determina se há retorno ou não após a parada cardíaca?
"A morte do tronco encefálico" é a resposta do grupo de Alice Chang, no Centro Médico Kaohsiung, em Formosa. Em artigo na revista PLoS One de novembro de 2009, o grupo mostra que o comprometimento por falta de oxigênio dos neurônios na região do bulbo encefálico (que regula a função cardíaca através do sistema nervoso simpático) impede o retorno dos batimentos cardíacos e a recuperação da pressão arterial.
O grupo provocou o colapso cardíaco em ratos anestesiados injetando um inseticida organofosforado em seu sangue, ou diretamente no bulbo encefálico - um tipo de intoxicação bastante frequente em humanos. Todos os animais responderam à intoxicação com uma ativação do sistema nervoso simpático que faz variar lentamente a pressão arterial sistêmica. Se essa resposta persiste - sinal de que a região necessária no bulbo ainda está operante -, os animais recuperam espontaneamente a função cardíaca e sobrevivem. Se a resposta desaparece, indicando morte dos neurônios nessa zona do encéfalo, os animais morrem minutos depois.
A morte neuronal no bulbo encefálico é consequência da falta de oxigênio decorrente da parada cardíaca, por sua vez causada, no modelo, pela ação de inseticida diretamente no bulbo. O grupo propõe, no entanto, que qualquer que seja a causa da parada cardíaca, o fator determinante do sucesso da reanimação cardíaca é o tronco encefálico ainda estar vivo, recebendo oxigênio suficiente. Ou seja: é inútil tentar reanimar o coração quando as estruturas vitais do tronco encefálico já sucumbiram.
O achado dá credibilidade ao uso do critério da morte do tronco encefálico para declarar a morte legal ao mostrar que, com a falência do tronco encefálico, a parada cardíaca é tanto inevitável (pois geralmente sucede em poucos minutos) quanto irreversível (apesar dos esforços das equipes de socorro). Um cérebro sem corpo não faz grandes coisas - mas um corpo sem cérebro nem consegue se manter vivo. (SHH, 14/11/2009)
Fonte: Chang AYW, Chan JYH, Chuang Y-C, Chan SHH (2009) Brain stem death as the vital determinant for resumption of spontaneous circulation after cardiac arrest in rats. PLoS One 4, e7744, doi:10.1371/journal.pone.0007744
Saturday, November 14, 2009 at 09:38AM
suzanahh |
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quando não funciona |
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Reader Comments (1)
Professora, desculpe a intromissão mas fiquei com uma dúvida. No começo está escrito: "Se por um lado um coração assistólico ainda pode voltar a bater com uma ajudinha elétrica externa, na prática somente 44% das vítimas de parada cardíaca submetidas à ressucitação elétrica de fato recuperam a circulação sanguínea".
Eu aprendi que pacientes que param com quadros de assistolia e atividade elétrica sem pulso só voltam da parada com o uso de drogas, enquanto o choque é utilizado para pacientes que param por taquicardia ventricular e fibrilação ventricular. Dessa forma, não entendi porque um coração assistólico poderia voltar a bater com uma ajudinha elétrica externa.
Obrigada e parabéns pelo site.
Beijos,
Mariana.