Vai improvisar? Desligue o córtex pré-frontal!
Você estudou piano durante anos: lê partituras com facilidade, toca com destreza e boa interpretação. Então, um dia decide... improvisar: inventar melodias e ritmos por conta própria, com base nas suas próprias experiências, emoções e memórias, e enviá-las aos dedos. Deveria ser fácil: afinal, com anos de prática, seu cérebro conhece perfeitamente bem os sons das notas sem precisar ouvi-las, e sabe encadeá-las com perfeição.
E no entanto, improvisar pode se mostrar terrivelmente difícil às primeiras tentativas. Por que? De acordo com Charles Limb e Allen Braun, pesquisadores do National Institutes of Health norte-americanos, não é porque a criatividade exija a ativação de alguma outra parte não treinada do cérebro. Aliás, pelo contrário, hoje se acredita que a criatividade depende da capacidade de usar as mesmas partes do cérebro que são responsáveis pelos sentidos, pela memória, pelo reconhecimento de padrões – mas de formas diferentes, inusitadas.
Limb e Braun descobriram, estudando pianistas de jazz que toparam tocar piano de dentro de um aparelho de ressonância magnética funcional, que ao improvisar o cérebro abre mão de controlar a si mesmo. Em comparação à execução de peças memorizadas, durante o improviso há uma grande redução da atividade de uma região extensa do córtex pré-frontal lateral, que normalmente se encarrega de supervisionar nossas ações, monitorando e controlando o resto do cérebro. As porções sensório-motoras do córtex continuam funcionando, claro, acompanhando a música e gerando as próximas notas, enquanto ao mesmo tempo aumenta bastante a ativação do pólo frontal do cérebro, responsável por nossa personalidade e história pessoal. Faz sentido; afinal, a improvisação é considerada uma expressão altamente pessoal, emocional, e livre da história do músico que toca.
Improvisar, então, é associar de maneira livre do controle pré-frontal: é deixar o cérebro encontrar melodias de acordo com suas memórias, valores, emoções e associações, sem o cerceamento lógico da sua porção pré-frontal, que tudo tenta supervisionar. Isso quer dizer que qualquer um pode aprender a improvisar - ao menos em princípio: uma vez que você já tenha as associações musicais necessárias em mente, basta conseguir deixar inertes os ímpetos controladores do córtex pré-frontal, enquanto o resto do cérebro cria com suas associações correndo soltas. Por essa razão, improvisar em público é “nível 2”, uma habilidade reservada àqueles que já aprenderam não só a desligar as partes controladoras do seu córtex pré-frontal como também a ignorar o córtex pré-frontal dos outros e o seu julgamento. Tocar, falar e contar piadas de improviso são expressões igualmente criativas da sua história e ponto de vista – desde que você consiga desligar a supervisão interna e entrar naquele estado maravilhoso de “flow”, onde as coisas simplesmente acontecem, e você se descobre quase espectador das próprias ações. Quer tentar? (SHH, 04/03/2010)
Fonte: Limb CJ, Braun AR (2008) Neural substrates of spontaneous musical performance: An fMRI study of jazz improvisation. PLoS One 3, e1679.
Para ler mais: veja Improviso a dois cérebros e quatro mãos, no blog da Neurocientista de Plantão.

Thursday, March 4, 2010 at 09:48AM
Reader Comments (2)
Maravilha! Muito legal!
Uma explicação que a minha esposa que é musicista concordou plenamente. É dificil deixar de controlar!
É super interessante o papel do córtex pré-frontal! Durante anos o desenvolvi e sempre o usei na análise do dia-a-dia. É um hábito já. De repente parei de massificar esse lobo, ao elevar-me, e a usar a parte de trás...Surtiram imensos efeitos, deixei de ser monofrásica e a ter uma percepção global do todo. Tenho vindo a adquirir destreza e mais rapidez involuntária de raciocínio. Também com maior criatividade e usufruo mais da minha espontânea imaginação.
Propositada a mensagem que li.
Pipa