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Friday
Apr092010

Perfume naturalmente atraente

Vários animais são influenciados por substâncias secretadas por membros de sua própria espécie. Algumas dessas substâncias têm aroma reconhecível; outras, como os feromônios, não têm qualquer cheiro, mas também são detectadas pelo nariz.

Feromônios são substâncias químicas pouco voláteis que provocam respostas fisiológicas em animais de mesma espécie. Os feromônios influenciam, por exemplo, a escolha de parceiro sexual: a fêmea preferida, considerada a mais atraente, tende a ser aquela cujo período fértil está mais próximo.

Isso vale para animais não-humanos. E para nós? Até recentemente não havia estudos significativos sobre a influência dessas tais substâncias químicas produzidas por mulheres em período fértil sobre o comportamento sexual dos homens.

Mas Miller e Maner, da Universidade Estadual da Flórida, nos EUA, publicaram em março de 2010 um estudo em que testaram a variação dos níveis de testosterona – hormônio masculino relacionado ao interesse sexual - em homens após cheirar o suor de mulheres em diferentes períodos reprodutivos. E provaram que de fato há uma resposta fisiológica masculina ao aroma de mulheres próximas ao seu período fértil.

A dupla de pesquisadores recrutou jovens mulheres e pediu-lhes que usassem a mesma camiseta para dormir durante três dias – os dias 13, 14 e 15 do ciclo reprodutivo, próximos à ovulação –, e depois uma nova camiseta por outros três dias – dias 20, 21 e 22 do ciclo reprodutivo, distantes da ovulação. No fim de cada noite as mulheres mantinham as camisetas congeladas num saco plástico para evitar que o odor se perdesse ou fosse influenciado por fatores externos.

Alguns dias após a coleta das camisetas, voluntários homens foram designados para cheirá-las. Minutos depois, os níveis de testosterona destes homens foram medidos através de amostras de sua saliva. Os voluntários que cheiraram as camisetas suadas no período fértil feminino apresentavam níveis maiores de testosterona do que aqueles que cheiraram as outras camisetas, indicando que pistas olfativas relativas à ovulação são capazes de afetar a fisiologia masculina. Em comparação, cheirar camisetas "controle", nunca usadas, não afeta os níveis de testosterona nesses homens.

O perfume natural das mulheres tem, portanto, poder de atração sobre os homens, podendo não só ser detectado como também provocar mudanças fisiológicas neles, ainda que inconscientemente.

Embora provem pela primeira vez que os homens respondem fisiologicamente ao aroma de mulheres em período fértil, os pesquisadores ainda não sabem qual é a substância produzida pelas mulheres, nem como ela age nos homens. Novos estudos dirão...

Antes da multimilionária indústria dos perfumes apostar em fragrâncias para aumentar o poder de sedução das mulheres, a natureza já se prestou a tal trabalho. Então, antes de gastar rios de dinheiro em perfumes para atrair o sexo oposto, pense que talvez você já tenha tudo o que precisa exalando do seu próprio corpo, naturalmente, mesmo que você não perceba. (SAC, 09/04/10).

 

Fontes:

Miller Sl, Maner JK (2010) Scent of a Woman: Men's Testosterone Responses to Olfactory Ovulation Cues. Psychological Science 21 (2) 276-283.

Bland E (2010) Women's Natural Scent More Seductive than Perfume. Discovery News 10/02/2010.



Tuesday
Mar302010

E se um ímã puder afetar o seu julgamento moral?

De acordo com um estudo recém-publicado na revista americana PNAS, um ímã aplicado ao lugar certo da cabeça, no momento certo, é capaz de afetar sua capacidade de fazer julgamentos morais, ou seja, decidir o que é certo ou errado. Como resultado, a pessoa "magnetizada" fica menos propensa a condenar o comportamento de pessoas que tentam causar o mal a alguém, mas não conseguem. Soa... moralmente errado, certo? Para Phillip Ball, que escreve a respeito no blog da revista Nature, a descoberta nos traz o mais perto que já chegamos de fantasias paranóides sobre ditadores controlando as mentes alheias.

Mas não é bem assim. Não se trata de encostar um ímã de geladeira na cabeça alheia para que alguém não condene os outros por suas intenções, e sim de lhe aplicar um campo magnético de 2 Tesla (400 vezes mais forte que um ímã de geladeira!) com um aparelho de estimulação magnética transcraniana (TMS, na sigla em inglês), ilustrado ao lado, que fica ligado a uma grande máquina contendo um enorme e pesado capacitor. Quando o capacitor é descarregado, a corrente elétrica aplicada às bobinas em forma de 8 produz um campo magnético que se espalha desimpedido ao cérebro através do crânio; por sua vez, esse campo magnético perturba a atividade elétrica dos neurônios na região específica diretamente abaixo da bobina. Dependendo da intensidade e da frequência da estimulação magnética, o resultado pode ser um aumento da atividade neuronal naquela região ou, ao contrário, uma redução da atividade, efetivamente "desativando" o local.

O objetivo do estudo, feito por Liane Young e colaboradores, incluindo o neurocientista espanhol Alvaro Pascual-Leone, especialista em TMS, e Marc Hauser, interessado em julgamentos morais, era justamente perturbar via TMS a junção têmporo-parietal do lado direito do cérebro, que se acredita ser necessária para que consigamos avaliar as intenções dos outros. Tal avaliação é fundamental quando julgamos, no comportamento alheio, os resultados efetivos e os resultados desejados separadamente.

Por exemplo: Marta troca intencionalmente o açúcar do açucareiro por um veneno em pó branco, semelhante ao açúcar, mas capaz de matar com uma pequena dose, e o oferece junto com o café a Rita. Rita, justo daquela vez, decide tomar seu café sem açúcar, e escapa da morte. Marta agiu certo, ou seu comportamento é condenável?

Donos de uma junção têmporo-parietal saudável são capazes de condenar moralmente o comportamento de Marta apesar do resultado inócuo. Por outro lado, conforme mostram Liane Young e seus colaboradores, a perturbação por TMS da atividade dessa parte do cérebro é capaz de tornar os voluntários do estudo muito mais complacentes, focados agora no resultado (inócuo ou fatal) e não na intenção maléfica do ator da estória. Pessoas autistas parecem ter uma dificuldade semelhante em levar em consideração as intenções alheias, focando-se ao invés disso apenas no resultado das suas ações.

O estudo atesta que a vida em sociedade é calcada muito mais em intenções do que em resultados efetivos - graças, justamente, à capacidade de nossa junção têmporo-parietal em representar a intenção alheia independentemente de seus resultados. Se não fosse assim, não haveria condenações por tentativas de homicídio mal-sucedidas... No final das contas, o que vale é a intenção - seja para o bem ou para o mal. E não será um ímã de geladeira que mudará isso! (SHH, 30/03/2010)

 

Fonte: Young L, Camprodon JA, Hauser M, Pascual-Leone A, Saxe R (2010) Disruption of the right temporoparietal junction with transcranial magnetic stimulation reduces the role of beliefs in moral judgments. Proc Natl Acad Sci USA,

Friday
Mar122010

Ansiedade matemática em meninas não vem do berço, e sim de estereótipos... e da professora

O gosto pela matemática divide as opiniões dos estudantes desde que estão nos primeiros anos do ensino fundamental. Há os que adoram o mundo dos números e há os que torcem o nariz só de pensar em fazer uma multiplicação. Muitos destes últimos manifestam uma grande ansiedade em relação à matemática, que pode ser definida como uma resposta emocional desagradável à matemática, e que é mais comum em mulheres do que em homens. O fato dessa ansiedade em relação à matemática ser mais comum em mulheres, ou meninas, é usado por alguns como evidência de que já na infância as mulheres seriam menos aptas para a matemática do que os homens.

Isso, no entanto, não é necessariamente verdade – e, aliás, há evidências de que não há uma inaptidão inata de qualquer dos sexos para a matemática. Ao contrário, a ansiedade em relação à matemática poderia ser... aprendida. E aprendida, por exemplo, da própria professora de matemática.

Isso é o que descobriram Sian Beilock e colegas, da Universidade de Chicago, em uma pesquisa com estudantes e professoras do ensino fundamental nos EUA, onde 90% dos professores do ensino fundamental são mulheres. O grupo testou as habilidades matemáticas e o grau de ansiedade com relação à matemática de 17 professoras da 1ª e 2ª série do ensino fundamental (mas não professores). Também os estudantes, nos três primeiros meses de aula e nos dois últimos, tiveram testadas suas habilidades matemáticas e sua crença no estereótipo acadêmico de gêneros (“meninos são melhores em matemática e meninas são melhores em leitura”). Afinal, seria possível que a ansiedade matemática das professoras levasse a um menor desempenho das alunas em matemática se estas se acreditassem intrinsicamente ineptas, como sua professora, para a matemática.

Para avaliar a crença no estereótipo acadêmico, os pesquisadores contavam duas histórias isoladas sobre um estudante (sem distinção de sexo, o que funciona em inglês) bom em matemática e um estudante (também sem distinção de sexo) bom em leitura e pediam às crianças para desenhar cada um dos personagens. Os cientistas perguntavam, então, às crianças se os personagens que haviam desenhado eram menino ou menina. O exercício foi realizado duas vezes: no início e no fim do ano letivo.

Resultado: no fim, mas não no início do ano letivo, as meninas lecionadas por professoras com ansiedade matemática tinham maior propensão a acreditar no estereótipo “meninos são bons em matemática e meninas são boas em leitura”. Ao final do ano, essas meninas, alunas de professoras com ansiedade matemática, também tinham menor desempenho matemático em relação aos meninos de sua classe e em relação às meninas da mesma classe que não acreditavam no estereótipo – embora no começo do ano todos tivessem desempenho igual. Os meninos, aliás, não parecem ser afetados pela ansiedade da professora, tenham eles ou não crença no estereótipo acadêmico.

A influência da ansiedade das professoras somente sobre as meninas pode ser atribuída ao fato de crianças em idade escolar (1a e 2a séries) tenderem a se espelhar nos adultos de mesmo sexo para compor seu repertório de comportamentos socialmente aceitáveis. Além disso, essas crianças já conhecem crenças comumente aceitas sobre gêneros e habilidades a elas atribuídas, e tendem a adotar comportamentos e atitudes que elas pensam ser adequados a cada sexo. Sendo assim, se a professora demonstra ansiedade em relação à disciplina e o senso comum diz que os meninos são melhores do que as meninas em matemática, muitas meninas acreditam nisso e sentem-se desmotivadas em desafios matemáticos. Essa falta de motivação tem uma influência direta no desempenho dessas meninas, que acaba sendo pior do que o esperado. Aliada à aceitação do estereótipo, a ansiedade matemática da professora, portanto, leva a queda do desempenho na disciplina, mesmo que a pessoa tenha habilidades suficientes para obter sucesso com os números.

Não se deve, contudo, colocar a culpa só na professora: há muitas outras fontes prováveis de influência no desempenho matemático das meninas, como professoras anteriores, pais, mães e irmãos, que reforçam ou não o estereótipo de habilidades acadêmicas.

O importante é lembrar que o desempenho geral de meninas e meninos não apresenta diferenças inatas: as habilidades são as mesmas entre os sexos, e o que difere é o estímulo que é dado a meninos e meninas para desenvolver suas competências. (SAC, 12/03/10).

 

Fontes: Beilock SL, Gunderson EA, Ramirez G, Levine SC (2010) Female teacher´s math anxiety affect girls’ math achievement. PNAS 107, 1860-1863.

Para ler mais: veja Mulheres e matemática, aqui nO Cérebro Nosso de Cada Dia.

 

 

 

Wednesday
Mar102010

A recuperação escolar sob investigação científica

Na época do colégio, muitos experimentam a sensação de chegar ao final de uma disciplina e não obter a nota suficiente para passar de ano. Solução? O período de reforço do aprendizado conhecido como “recuperação”, verdadeiro pesadelo para alguns!

Para o desespero dos que esperneiam dizendo que não necessitam de reforço, ou que o reforço não adianta nada, um artigo na revista Neuron de dezembro de 2009 apresenta justamente os benefícios para o cérebro dos alunos que passam por tal período de remediação.

Timothy Keller e Marcel Just, da Universidade Carnegie Mellon em Pittsburgh, EUA, recrutaram crianças em idade escolar com nível de leitura baixo e os separaram em dois grupos: um deles recebeu somente o ensino formal, enquanto o outro passou adicionalmente por aulas de reforço direcionadas para melhorar a capacidade de decodificar fonemas. Comparada às duas semanas usuais de duração da recuperação escolar, a recuperação no estudo foi anormalmente longa: os alunos passaram por 100 horas de estudo remedial, distribuídos em 6 meses, com aulas diárias de 50 minutos, 5 vezes ao semana.

Em crianças com dificuldades de leitura, já havia sido observada uma redução da substância branca semioval do cérebro, que é a porção da substância branca onde se encontram as fibras que conectam os lobos frontal, parietal e temporal, trocando informações necessárias para a leitura. Essa redução pode resultar tanto de uma deficiência de mielinização quanto de uma redução da espessura das fibras ou até do seu número. Com uma menor conectividade entre os lobos cerebrais, a leitura ficaria prejudicada.

Em comparação, Keller e Just observaram que, ao fim dos seis meses do estudo, os alunos submetidos ao programa de recuperação, e somente eles, tiveram um aumento da substância branca semioval. O aumento ocorreu no sentido do envoltório das fibras, o que leva a crer que o efeito da recuperação é um espessamento da bainha de mielina dos axônios da substância branca, que confere isolamento elétrico aos impulsos nervosos que trafegam pelos axônios, tornando a transmissão de sinais mais rápida e fidedigna – o que provavelmente facilita a leitura. De fato, as crianças que fizeram a recuperação, e não as outras, tiveram uma melhora na capacidade de decifrar palavras.

Ou seja: ficar em recuperação pode ser um sofrimento – mas, se serve de consolo, ela é sim capaz de mudar o cérebro! (PfMRI, 10/03/2010)

 

Fonte: Keller AT, Just MA (2009). Altering Cortical Connectivity: Remediation-Induced Changes in the White Matter of Poor Readers. Neuron. Dec;64(5): 624-631.

Tuesday
Mar092010

Médicos frios: você quer um desses 

O cérebro humano é dotado da capacidade automática de empatia: quando é exposto ao sofrimento de outra pessoa, ou mesmo o imagina, ele se importa como se a dor alheia fosse sua. A empatia, portanto, é essa mimetização da reação do cérebro do outro. Assim, o sorriso do outro nos alegra e o seu sofrimento... dói.

Entretanto, a reação dos profissionais da área da saúde ao sofrimento alheio parece distinta da empatia que as demais pessoas experimentam. Será esse um embotamento emocional aprendido por prática e necessidade, para sobreviver à própria profissão? Será que, ao contrário, só se torna médico quem consegue não sofrer junto com o paciente? Será que os médicos de fato não empatizam com seus pacientes, ou apenas não o demonstram? 

O fenômeno da empatia à dor se dá em duas etapas: uma inicial, automática e relacionada à afetividade, e uma posterior, de avaliação cognitiva. Estudos de neuroimagem já haviam demonstrado que, ao ver alguém ser espetado por uma agulha, o cérebro de pessoas “comuns” (leia-se não médicas) tem rapidamente ativados circuitos, como o córtex cingulado dorsal e a ínsula anterior, envolvidos no processamento afetivo da dor – como se ela fosse sua. Daí a aflição e a compreensão da dor do outro. No cérebro dos médicos, ao contrário, essas regiões não são ativadas, mas outras são, envolvidas com atenção e função executivas e autocontrole – como se o médico fizesse força para ignorar o sofrimento alheio, e acabasse conseguindo. Mas uma outra interpretação seria possível: a própria falta de empatia poderia se tornar automática nos médicos.

Um estudo publicado na revista NeuroImage desvendou o mistério. Pesquisadores do grupo de Jean Decety acompanharam a dinâmica da atividade elétrica dos cérebros de médicos e não-médicos, registrada pelo EEG, enquanto esses assistiam a cenas de pessoas sendo espetadas por uma agulha ou tocadas por um cotonete. Descobriram que, tanto no momento inicial (apenas um décimo de segundo após o estímulo visual – relacionado ao componente afetivo) quanto em um posterior (também em menos de meio segundo – associado ao caráter cognitivo), o cérebro dos médicos se comporta da mesma forma ao assistir às situações dolorosas ou não, enquanto o dos outros reage de forma diferente a cada uma dessas situações.  

Esses resultados sugerem que a modulação negativa da empatia à dor que ocorre nos médicos se dá tanto em um nível automático quanto cognitivo. E comprovam que – sim! – os médicos são mais frios quanto à dor alheia, como vários pacientes já reclamam.

Mas é justamente essa “frieza”, essa tolerância, que permite que os médicos realizem seus trabalhos. Um ortopedista desesperado com uma fratura nunca conseguiria repará-la. Um pediatra que experimentasse a mesma sensação dos pais de uma criança que se machuca teria comprometida sua capacidade de ajudar, pois a empatia pode levar a um estado geral de alarme e ansiedade. Com a exposição sucessiva, seu próprio bem-estar ficaria prejudicado – e, com isso, sua habilidade médica. A “falta” de empatia do médico pode incomodar. Mas pense bem: em uma emergência, você preferiria ser atendido por um médico tranquilo que resolve o problema rapidamente ou por um médico que se desespera e chora junto com você? (ACMAC, 09/03/2010)

 

 

Fonte: Decety J, Yang C, Cheng Y (2010) Physicians down-regulate their pain empathy response: An event-related brain potential study