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Sunday
Aug312008

Que diferença faz o pescoço da girafa ser comprido?

Para a estrutura da medula espinhal, curiosamente, nada – é o que afirma a equipe do neurocientista sul-africano Paul Manger em artigo publicado na revistaNeuroscience em 2007.

O fato de o pescoço desses animais de mais de uma tonelada chegar a dois metros de comprimento fez os cientistas indagarem se a natureza teria implementado alterações na estrutura da medula espinhal e mesmo do cérebro, para tornar possível que as fibras dos neurônios motores do córtex cerebral chegassem a seus alvos especialmente distantes na medula. Três girafas e duzentos litros de formol depois, os pesquisadores constataram que o córtex motor da girafa e sua medula espinhal têm estrutura semelhante à de outros ungulados, como cavalos e zebras.

Não fazer diferença ter dois metros de pescoço, no entanto, pode ser uma peculiaridade desses animais, já que neles, os neurônios do córtex motor se estendem somente até os ombros, controlando apenas os membros anteriores. Mesmo na girafa, isso dá uma distância que ainda pode ser razoável em termos funcionais. Em humanos, por exemplo, os neurônios do córtex motor que controlam os dedos dos pés possuem fibras que percorrem quase um metro, até a porção inferior da medula espinhal – uma longa distância apesar do pescoço mínimo. SHH

Fonte: Badlangana NL et al. Observations on the giraffe central nervous system related to the corticospinal tract, motor cort ex and spinal cord: what difference does a long neck make? Neurosci 148, 522-534 (2007)

 

Friday
Mar282008

Vai brigar? Pingue ocitocina antes 

A ocitocina definitivamente deixou de ser apenas um hormônio associado à lactação e ao parto. Suas funções pró-sociais já incluem a formação de laços afetivos entre mães e filhos e entre namorados, a preferência sexual pelo parceiro, e até a confiança em investidores.

Agora, mais esta: segundo um estudo da Universidade de Zurique, um pouquinho de ocitocina pingada no nariz de casais prestes a começar uma discussão diminui a produção de cortisol, hormônio produzido em resposta ao estresse do bate-boca, e deixa os casais mais propensos a "abrir seu coração" durante o arranca-rabo. Não estava no estudo, mas uns abraços antes da discussão devem surtir um efeito parecido: abraços são a alternativa natural - e bem mais agradável - ao vidrinho de ocitocina vendido na farmácia da esquina.

Antes que você fique pensando em abraçar sua próxima vítima antes de discutir com ela, há no entanto um pequeno porém. De acordo com o estudo suíço, pingar ocitocina no nariz não faz ninguém mudar de opinião sobre a discussão. Infelizmente... ou não! (SHH)

Fonte: XXXVI reunião anual da Society for Neuroscience, 2006, program no. 505.14.

 

Friday
Feb152008

Moral emocional

Imagine-se em frente a uma chave de ferrovia que pode fazer com que um vagão com cinco passageiros mude de trilhos. Se você não fizer nada, os cinco passageiros vão se esborrachar, porque a via está bloqueada. Se você virar a chave, os cinco passageiros se salvam, mas um funcionário da ferrovia trabalhando nos trilhos certamente morrerá. O que fazer? A maioria das pessoas viraria a chave. Mas se a questão fosse empurrar o mesmo funcionário da ferrovia para a frente do vagão de modo a salvar outros cinco trabalhando mais adiante, a maioria das pessoas não faria nada.

O que faz com que em um caso, mas não no outro, seja moralmente aceitável sacrificar uma vida em nome de outras cinco? Psicólogos e filósofos não conseguem encontrar nenhum conjunto de "princípios morais" que forneça uma explicação satisfatória para o que o ser humano considera aceitável. Mas segundo Joshua Greene, doutorando em filosofia da Universidade Princeton, nos Estados Unidos, a diferença é que a idéia de empurrar uma pessoa provoca em você uma reação emocional mais forte do que virar uma chave - e por isso seria inaceitável, embora ambos sejam racionalmente equivalentes.

Um teste dessa hipótese aplicando o método da ressonância magnética funcional em nove voluntários que julgaram 60 dilemas morais demonstrou que, de fato, três áreas cerebrais relacionadas ao processamento de emoções são muito mais ativadas durante o processo de decisão em dilemas morais "pessoais", como o caso de empurrar o funcionário, do que em dilemas morais "impessoais", como o caso de virar a chave. Essa ativação não ocorre em dilemas não morais, como decidir tomar um trem ou um avião para chegar mais rápido.

Embora a emoção pareça influenciar o julgamento, ela não é final: alguns voluntários que apresentaram a reação emocional no cérebro decidiram pelo contrário - sim, é aceitável empurrar o funcionário. Mesmo assim, ir contra a emoção tem seu preço: é necessário pensar vários segundos a mais para decidir. Se alguém ainda tinha dúvidas, o estudo de Greene vem confirmar de vez a visão do neurologista português António Damásio: Descartes errou ao separar razão e emoção. (SHH)

 

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