Vida em sociedade
O que é bom para você não é necessariamente bom para os seus vizinhos. Portanto, para conviver em grupo de maneira harmoniosa (o que é traz uma série de vantagens a qualquer espécie) é preciso que cada indivíduo seja capaz de levar os demais em consideração - ou seja, de organizar seu comportamento contando com uma avaliação prévia de como os outros serão afetados por ele, ou antecipando por exemplo o que os outros esperam que aconteça. Levar os outros em consideração ao organizar o próprio comportamento é possível graças a algumas capacidades do cérebro:
Imitação automática e empatia
Seres humanos e vários outros animais têm a capacidade de imitar automaticamente o que vêem os outros fazerem. Hoje se acredita que isso é função dos neurônios-espelho, células no córtex pré-motor que representam e organizam nossas próprias ações (como gestos e movimentos variados) e também são ativadas quando observamos aquela ação específica ser realizada por outra pessoa. O resultado é que, com essa imitação interna - quando nosso córtex pré-motor espelha a ação observada -, ganhamos acesso em primeira pessoa ao que a pessoa observada está fazendo. Assim podemos, sem esforço cognitivo, inferir causa-e-efeito, aprender por imitação, e até ganhar insight sobre as intenções da pessoa observada.
Hoje se acredita que a empatia (literalmente a capacidade de "sofrer junto", ou seja, de sentir, ou ao menos intuir, o que o outro sente) funcione por um mecanismo semelhante de imitação automática. Ao vermos alguém chorar, sorrir ou sentir dor ou nojo, são ativadas em nosso cérebro as mesmas áreas que entram em ação quando o choro, sorriso, dor ou nojo é nosso - e assim não só sabemos em primeira mão o que a pessoa deve estar sentindo como sentimos junto. Assim o estado emocional de um cérebro se transmite aos outros ao seu redor.
Julgamento de intenções
Julgar se o comportamento de outra pessoa é intencional, ou inferir as intenções alheias, é função de uma região específica do do córtex cerebral: a junção têmporo-parietal. Aqui ficam neurônios que são ativados quando nos colocamos mentalmente no lugar dos outros e analisamos o que eles devem estar pensando ou querendo fazer - ou seja, quando tentamos adivinhar suas intenções. Essa parte do cérebro é ativada portanto quando julgamos que o comportamento (bom ou mau) de uma pessoa foi intencional, o que é a base de decisões importantes que vêm a seguir sobre como lidar com a pessoa que pisou no seu pé ou lhe emprestou dinheiro voluntariamente ou à força.
Teoria da mente
A capacidade de se colocar mentalmente no lugar do outro, base do julgamento de intenções, é chamada de teoria da mente - ou, por extenso, "capacidade de formular uma teoria sobre o conteúdo mental alheio". É possível que essa capacidade, também função da junção têmporo-parietal, esteja perturbada no autismo - bem como a função dos neurônios-espelho.
Julgamento moral
Julgar se as ações dos outros e as nossas foram, são ou serão corretas ou inapropriadas é função de outras duas pates do córtex: o polo frontal e o polo temporal, que combinam valores emocionais ao processamento racional das informações.
Essas estruturas, assim como a junção têmporo-parietal, amadurecem ao longo da infância e da adolescência. Seu funcionamento saudável, combinado à experiência social (necessária para o aprendizado social), permite ao dono do cérebro se tornar uma pessoa bem ajustada socialmente, isto é, capaz de organizar seu comportamento levando os outros em consideração.


